Riscos psicossociais e o PGR: Como o Manual do GRO auxilia na gestão desses fatores
- Andre Ricardo Esquibel

- 19 de mar.
- 5 min de leitura

Entenda como a atualização da NR-1 ampliou a gestão de riscos ocupacionais e os impactos disso na gestão das organizações
Nos últimos anos, o debate sobre saúde mental no trabalho ganhou espaço nas organizações, impulsionado pelo aumento de afastamentos relacionados ao estresse ocupacional, síndrome de Burnout e outros transtornos associados às condições de trabalho.
Com a atualização da NR-1 – Disposições Gerais e Gerenciamento de Riscos Ocupacionais, esse tema passou a integrar formalmente o sistema de gestão de riscos das empresas. A inclusão dos fatores de riscos psicossociais relacionados ao trabalho representa uma das mudanças mais relevantes na forma como a segurança e saúde ocupacional são tratadas no país.
Nesse contexto, o Manual de interpretação e aplicação do Gerenciamento de Riscos Ocupacionais (GRO) e do Programa de Gerenciamento de Riscos (PGR) surge como uma ferramenta importante para orientar organizações e profissionais de Segurança e Saúde no Trabalho na identificação, avaliação e gestão desses fatores.
A inclusão dos riscos psicossociais no gerenciamento de riscos ocupacionais
Tradicionalmente, a gestão de Segurança e Saúde no Trabalho concentrou-se em riscos de natureza física, química, biológica, ergonômica e de acidentes. Entretanto, mudanças nas formas de organização do trabalho evidenciaram que fatores relacionados ao ambiente psicossocial também podem impactar significativamente a saúde dos trabalhadores.
A revisão da NR-1 passou a reconhecer explicitamente esses fatores como parte do processo de gerenciamento de riscos ocupacionais, ampliando o escopo da gestão de riscos nas organizações.
Entre os fatores psicossociais relacionados ao trabalho que podem ser observados nas organizações, destacam-se:
Sobrecarga ou excesso de demandas de trabalho
Pressão excessiva por produtividade
Assédio moral ou outras formas de violência no trabalho
Falta de suporte organizacional
Conflitos nas relações de trabalho
Baixa autonomia na execução das atividades
Esses fatores podem contribuir para o desenvolvimento de problemas de saúde mental, afetando tanto os trabalhadores quanto o desempenho das organizações.
A relação entre NR-1 e NR-17 na gestão desses riscos
O Manual do GRO/PGR também reforça a integração entre a NR-1 e a NR-17 – Ergonomia no tratamento dos fatores psicossociais.
A NR-17 estabelece que a gestão das condições de trabalho, incluindo fatores psicossociais, deve ser realizada por meio de instrumentos como:
Avaliação Ergonômica Preliminar (AEP) Ferramenta obrigatória para identificar perigos relacionados às condições de trabalho, incluindo fatores psicossociais.
Análise Ergonômica do Trabalho (AET) Estudo mais aprofundado aplicado quando são identificadas situações que demandam avaliação detalhada das atividades e da organização do trabalho.
Essas avaliações contribuem para que os fatores psicossociais sejam incorporados ao Inventário de Riscos do PGR, permitindo uma análise mais completa dos riscos presentes nas atividades de trabalho.
Como o manual orienta a gestão dos riscos psicossociais
O Manual do GRO/PGR orienta que a gestão dos fatores de riscos psicossociais deve seguir uma abordagem estruturada, integrada ao processo geral de Gerenciamento de Riscos Ocupacionais (GRO). Essa gestão envolve etapas sistemáticas que permitem identificar, avaliar e controlar fatores organizacionais que possam impactar a saúde mental e o bem-estar dos trabalhadores.
Planejamento e preparação
A primeira etapa consiste no planejamento do processo de gestão dos riscos psicossociais, garantindo que a organização possua estrutura adequada para conduzir a análise.
Nessa fase, é fundamental:
Definir os responsáveis pela condução do processo de avaliação;
Estabelecer a metodologia de identificação e análise dos riscos psicossociais;
Identificar setores, processos ou atividades com maior potencial de exposição a fatores de risco;
Definir os instrumentos de coleta de informações, como entrevistas, observações das atividades, questionários organizacionais ou análises ergonômicas.
Também é recomendável envolver diferentes áreas da organização, como Segurança do Trabalho, Recursos Humanos, liderança operacional e medicina do trabalho, garantindo uma abordagem mais abrangente das condições de trabalho.
Esse planejamento permite estruturar o processo de avaliação de forma consistente e alinhada à realidade operacional da empresa.
Identificação de perigos e avaliação de riscos
Após a etapa de planejamento, inicia-se o processo de identificação dos perigos e avaliação dos riscos psicossociais presentes no ambiente de trabalho.
Essa análise deve considerar aspectos relacionados à organização do trabalho, tais como:
Volume e ritmo das demandas de trabalho;
Pressão por metas ou produtividade;
Clareza na definição de responsabilidades;
Autonomia na execução das atividades;
Suporte organizacional e liderança;
Qualidade das relações interpessoais no ambiente de trabalho.
Esses fatores devem ser avaliados quanto ao seu potencial de gerar impactos na saúde dos trabalhadores, podendo resultar em situações de estresse ocupacional, desgaste mental ou conflitos organizacionais.
As informações obtidas nessa etapa devem ser registradas no Inventário de Riscos do PGR, permitindo que os fatores psicossociais sejam analisados dentro da gestão global de riscos da organização.
Implementação e acompanhamento das medidas de prevenção
A etapa final consiste na definição e implementação das medidas de prevenção necessárias para reduzir ou controlar os riscos identificados.
Essas medidas podem envolver diferentes níveis de intervenção, como:
Ajustes na organização do trabalho;
Melhoria da comunicação e das práticas de liderança;
Revisão de processos ou cargas de trabalho;
Fortalecimento dos canais de suporte ao trabalhador;
Ações voltadas à promoção da saúde mental no ambiente organizacional.
Após a implementação das medidas, é essencial realizar o monitoramento contínuo de sua eficácia, avaliando se as ações adotadas estão contribuindo para a melhoria das condições de trabalho e para a redução dos fatores de risco psicossociais.
Esse acompanhamento deve fazer parte do processo de melhoria contínua do sistema de gestão de segurança e saúde no trabalho, garantindo que a organização mantenha uma abordagem preventiva e sustentável na gestão desses fatores.
Impactos na gestão das organizações
A inclusão dos riscos psicossociais no GRO traz impactos importantes para a gestão das empresas, ampliando a forma como a Segurança e Saúde no Trabalho são tratadas.
Entre os principais impactos observados estão:
Ampliação do escopo da gestão de riscos
A gestão de riscos passa a considerar não apenas perigos físicos ou operacionais, mas também fatores relacionados à organização do trabalho e às relações profissionais.
Maior integração entre áreas da empresa
A gestão dos riscos psicossociais exige maior interação entre áreas como Segurança do Trabalho, Recursos Humanos, liderança operacional e medicina do trabalho.
Desenvolvimento de novas metodologias de avaliação
A identificação desses riscos pode envolver entrevistas, questionários organizacionais, análises ergonômicas e outras ferramentas que permitam compreender a dinâmica do trabalho.
Fortalecimento da cultura organizacional
Ao considerar fatores psicossociais na gestão de riscos, as organizações ampliam sua capacidade de promover ambientes de trabalho mais saudáveis e sustentáveis.
O papel estratégico do profissional de Segurança do Trabalho
Com essa mudança, o profissional de Segurança do Trabalho passa a desempenhar um papel ainda mais estratégico dentro das organizações.
Além de atuar na prevenção de acidentes, ele passa a contribuir também para a melhoria das condições organizacionais e para a promoção da saúde mental no ambiente de trabalho.
Isso amplia significativamente a relevância da Segurança e Saúde no Trabalho na gestão das empresas.
Considerações finais
A inclusão dos riscos psicossociais no Gerenciamento de Riscos Ocupacionais representa um avanço importante na forma como as organizações tratam a segurança e saúde no trabalho.
O Manual do GRO/PGR fornece orientações importantes para que empresas e profissionais de SST possam compreender e aplicar esses conceitos na prática, integrando os fatores psicossociais ao processo de identificação, avaliação e controle de riscos.
Mais do que atender a uma exigência normativa, a gestão desses riscos contribui para a construção de ambientes de trabalho mais seguros, equilibrados e produtivos.

Comentários